Para um jogo que supostamente ninguém jogou, já se escreveu extraordinariamente muito sobre Killer7. Tanto que se escreveu, que forçosamente tudo o que eu escrever neste artigo parecerá redundante - tudo excepto, claro, a minha opinião.
Pode parecer estranho, mas Killer7 não é um jogo para jogar, e isso é algo que, uma pessoa apercebe-se, é visível na forma como o jogo foi criado. Killer7 foi feito para ser experimentado, apreendido, absorvido pelos sentidos, da mesma maneira que alguém anda numa montanha russa. Aliás, o sistema de jogo dá força a esta comparação, com os personagens “sobre carris” a seguirem caminhos pré-traçados, de forma a maximizar o impacto da câmara. Pode parecer estranho, mas passados uns minutos torna-se meramente acessório, porque qualquer um com dois palmos de testa consegue aperceber-se que este jogo não é equiparável a um qualquer FPS - ou a qualquer outro jogo.

É aquela altura do mês.
É uma mistura de Lynch, Tarantino, anime, esteróides e LSD que entrega ao jogador uma história ao mesmo tempo simbólica e literal, oferecendo-lhe, já agora, a possibilidade de dar uns tirinhos e resolver uns puzzles pelo caminho, para pelo menos dar a sensação de desafio e envolvimento com os personagens.

É importante não incomodar este magnífico espécime de gajo-pendurado-do-tecto, raramente observado no seu habitat natural.
E que história esta! Na superfície, coloca-nos na pele do sindicato Smith - um grupo de 8 assassinos com capacidades extraordinárias que, na realidade, não passam de múltiplas personalidades de uma única pessoa, capaz de se transmutar fisicamente em todos eles. No centro, temos Harman Smith, um homem idoso, misterioso e aparentemente imortal, confinado a uma cadeira de rodas, e envolvido num conflito eterno com Kun Lan, cabecilha do grupo terrorista Heaven Smile, composto por pessoas mutadas de forma a tornarem-se bombas vivas com risos tétricos. Por baixo disto, esconde-se uma trama multi-nivelada, evoluindo aos níveis político, filosófico, psicológico e mesmo espiritual. Muita loucura, mas por muito que os múltiplos desenvolvimentos nos possam deixar a pensar, nunca são desprovidos de sentido plausível.
E é por isso que eu amo Killer7.

The roof, the roof, the roof is on fire.
Como jogo, Killer7 pode até ser terrivelmente limitado e desajeitado de uma forma que seria fatal caso a sua avaliação fosse feita de qualquer outra forma. Mas todos os elementos sensoriais, desde os gráficos cel-shaded à música evocativa, estão de tal forma bem encaixados, que uma vez que este conjunto faça “clique” com a mente do jogador, este torna-se complacente com todas as falácias da sua jogabilidade. Todo o jogo está construído em torno dos personagens e da sua trama, fornecendo assim pistas que permitem formar os seus retratos e deduzir os aspectos mais ambíguos da história. Coisa linda.

We don’t need no water, let the motherfucker burn! Burn, motherfucker, burn!
Suda 51 criou uma experiência de jogo de tal forma marcante que, apesar de ter sido apreendida por poucos, justifica por si tudo o que foi escrito sobre ela, e ainda muito mais. De mim, leva o maior elogio que o Myke pode oferecer a um jogo: é simplesmente inesquecível. Uma coisa é certa, porém: ninguém ficará indiferente. Recomendado a todos os que gostem de ter a sua frágil mentezinha corrompida, mexida e remexida até mais não, e que dêm mais importância ao conteúdo do jogo do que à sua forma.



